É sabido que estamos sempre em busca dela, a tal da felicidade.
Pois é, nestes últimos tempos este assunto muito me ocupa. E tenho lido e ouvido e falado sobre o tema. Pensei até que ser feliz o tempo todo não fosse algo que pudéssemos suportar. Martin Page no seu "Comment je suis devenu Stupide" faz seu Antoine perguntar a Clémence se há um número diário de emoções que não se pode ultrapassar , ao que ela responde não estar acostumada a overdose de emoções geniais.
Assim sendo, é plausível que pequenos momentos alegres sejam suficientes para dar sentido a uma vida mais ou menos vazia. (Ajudar os outros, tomar banho de chuva, receber um beijo muito esperado ou ganhar na loteira são motivos de grande contentamento dependendo da demanda de cada um).
Mas fui alertada para o fato de que podemos aguentar um monte de felicidade (uma alegria além das expectativas é ainda mais alegre). E que amor e amizade poderiam ser, afinal, a única saída possível para quem busca ser feliz.
Há quem encontre nos livros e na racionalidade mais motivos de deleite do que no calor humano. Há quem ache nas viagens e aventuras uma razão de viver. Na religião, na arte, no trabalho, no poder, nas drogas, no esporte, no sexo...
A pergunta que nasce e morre conosco é sempre a mesma: para que nascemos e morremos? Como podemos aproveitar melhor essa passagem pelo mundo? Por que a maioria de nós tenta desesperadamente ser feliz? E por que esse desejo pode nos tornar ainda mais infelizes?
Lembrei- me da simplicidade de um morador de rua que dormia sob o pilotis do meu prédio, há alguns anos, cujo nome real foi apagado da minha memória em reação à força do seu apelido: "Homem-a-Homem", alcunha difícil de esquecer. Numa noite de chuva tempestuosa, eu chegava em casa, e ele faminto, coberto com trapos e enxarcado no colchão castigado disse: "Eita, invernão bom!". Desse mesmo homem indiferente à fúria da natureza, e à própria condição miserável, é também a frase: "Tudo no mundo se acaba."
Pois bem, ciente disso, me apeguei à solução simples de Voltaire na visão do seu Cândido, que depois de tantas viagens pelo mundo, entende que para tornar a vida mais suportável é preciso "cuidar do nosso jardim". Assim mesmo, depois de uma jornada de aventuras e misérias, é só isso que importa. Cultivar e colher (pode não ser a resposta definitiva, mas é o que temos para o momento).
"so, therefore I shall take care of myself, so adieu."
Tire suas mãos de mim
Eu não pertenço a você
Não é me dominando assim
Que você vai me entender
Eu posso estar sozinho
Mas eu sei muito bem onde estou
Você pode até duvidar
Acho que isso não é amor
Será só imaginação?
Será que nada vai acontecer?
Será que é tudo isso em vão?
Será que vamos conseguir vencer?
Nos perderemos entre monstros
Da nossa própria criação?
Serão noites inteiras
Talvez por medo da escuridão
Ficaremos acordados
Imaginando alguma solução
Pra que esse nosso egoísmo
Não destrua nosso coração
Brigar pra quê
Se é sem querer
Quem é que vai nos proteger?
Será que vamos ter
Que responder
Pelos erros a mais
Eu e você
“Tempo haverá, tempo haverá para moldar um rosto com que enfrentar os rostos que encontrares...Tempo para ti e tempo para mim, e tempo ainda para uma centena de indecisões e uma centena de visões e revisões, antes do chá com torradas.”
(T. S. Eliot)
Compositor, humorista, poeta, filósofo das massas, o cantor cearense Falcão se vende como o supra-sumo da breguice. E a verdade é que, este artista formado em Arquitetura (!!) soube bem assimilar e reunir em canções, na postura e no figurino
todos os temas do imaginário popular que tanto afligem a humanidade: dinheiro, sexo, cachaça e chifre. Nesta ordem, ou não.

É sucesso garantido! Quando, há mais de um ano, fui ao show de lançamento do seu impagável "What porra is this?", vi que ele realmente agrega tribos e tendências sem distinção ou medo de preconceito. O público cantou junto quase todas as músicas e foi LINDO acompanhar os seus sábios versos em: "Se algum desafeto roubar sua mulher, sua maior vingança é deixá-lo ficar com aquela fuleiragem." Ou ainda: "Lends Picantis In Ânus Autrem Q'sucus Est".
E como "é melhor cair em contradição do que do oitavo andar", é o próprio mestre do esculacho quem se surpreende com o alcance de suas palavras ao declarar na música "Quanto mais principalmente" : "Eu me admiro é o pessoal assimilar e achar legal a minha categoria de putaria."
Tive um acesso de riso, de doer as bochechas e passar mal na primeira vez que ouvi: "Pelas marcas de pneu nas suas costas, eu vejo que você também andou se divertindo", da singela canção "Prometo não ejacular na sua boca". Que é no mesmo nível e elegância de "Se eu morrer sem gozar do teu amor minha alma lhe perseguirá de pau duro."
Enfim, como sou assumidamente brega muito romântica e "vim contando jumento na estrada pra lhe esquecer", passo então para o próximo ícone da música:
Fui vizinha deste cara! Não lembro, mas minha mãe - que não mente - conta que ele morava perto da gente na palpitante cidade de Timon, e que passava um perrengue danado. Teríamos chegado até a mandar umas provisões, víveres (farinha, rapadura, café) por cima do muro do quintal. E ele também teria o hábito de bater na mulher (mas esta informação carece de fontes).
Da família que usou farda, na mesma patente por várias gerações, herdou o nome artístico.
Depois de relativo sucesso nas décadas de 60 a 80 principalmente no Maranhão, Piauí e Ceará onde ficou conhecido também pelos dentes de ouro e quilos de colares, anéis e pulseiras que usava, nosso astro teria ido para as bandas do Pará, na trilha do garimpo e ainda para a Venezuela e outros países onde passou dificuldades e ficou na obscuridade.
Mas nos anos 90, as rádios e gravadoras fizeram "o resgate do soldado Raimundo" (ui!), e ele voltou a fazer apresentações. Foi vendido como a mega-super-hiper estrela que depois de uma turnê "internacional" estava de volta. Requentado, o ídolo caiu nas graças de playboys e patricinhas, reunia até seis mil pessoas em seus shows pelo Nordeste.
Estava nisso, quando tomava banho num riacho, teve febre e morreu. Era meningite! O noticiário deu conta de que durante o velório teriam roubado sua bicicleta e seu celular.
Fui a um dos shows dele, fiquei perto do palco. Tocava bem melhor do que cantava. Aliás, cantar, cantar meeesmo....
Enfim! Seus velhos sucessos que misturavam qualquer coisa de forró, jovem guarda e carimbó, tinham letras simples como ele próprio. No mais, era só dançar:
"Dou mais um passo pra frente, pra nós dois se agarrar! Uôu-uôu-ôu-ôu..."
Sim, "é melhor ser alegre que ser triste", mas... I've got those midnight blues
Da série "canções para encher a cara"
"Enquanto, submetidos que andamos à monstruosidade, quase não conseguimos levantar os olhos e ver à nossa volta para decidir o que havemos de fazer e como havemos de aplicar o que de melhor existe nas nossas forças e na nossa atividade, e enquanto nos fizer falta o mais elevado dos entusiasmos, que só pode existir se não for de natureza empírica, há-de continuar a haver, não digo dragões, mas pelo menos vermes miseráveis a roer o nosso cotidiano."
(GOETHE)

“Sim, quase todos os presidiários eram taciturnos, odientos e não queriam de modo algum que suas esperanças fossem pressentidas pelos demais. Simplicidade e franqueza eram desprezadas. Quanto mais fantasiosas fossem suas esperanças e quanto mais o sonhador percebesse que não eram realistas, mais obstinadamente ele as escondia, mas não abria mão delas. (...)"
(Dostoievski. Recordações da Casa dos Mortos)












